procedimentos estéticos em alta, aquecimento global, pandemia, violência… estamos constantemente sendo lembrados da vulnerabilidade da vida e do nosso iminente fim. penso muito sobre viver, envelhecer e morrer, desde criança. é um assunto temido, evitado, estigmatizado, parece que há uma ligação inconsciente de falar sobre a morte com o medo de se aproximar dela. no entanto, é uma das poucas certezas que temos dentre os mistérios da nossa existência. li um comentário que dizia que o ser humano não tem o desejo de ser imortal, mas de decidir quando e como morrer. eu mesmo me pego imaginando essas possibilidades e acho que é natural da humanidade sentir falta de algum controle. ao mesmo tempo, o que de fato se tem controle não é planejado e tampouco é executado. quero dizer, prioridades globais não são vistas como tal, apesar de afetarem diretamente o nosso futuro e, por conseguinte, nossa vida e morte. uma coisa vai levando à outra e pouco é feito. “alívio dos sintomas”. paradoxal, certo?

escrevo isso ao passo de alguns dias, em meio a morte recente de uma tia-avó muito querida, estar doente (o drama do homem médio quando fica gripado) e acontecimentos trágicos e históricos, a nível nacional e mundial. destaquei cada uma dessas seções em parágrafos prolongados, numa escrita quase que profética, mareada, pancadas e mais pancadas de ondas que iam e voltavam remoendo frustrações, enquanto no fundo a televisão noticiava tragédias assustadoras que pareciam responder em tempo real os meus desabafos, como se dissessem: “sim, é isso mesmo!”. depois de algumas leituras, decidi recortar o texto, justamente pela reincidência dos fatos e pelo sentimento de que nada adiantaria meus protestos.

na minha infância, tendo por referência as fotografias, acreditava que o mundo antigamente era preto e branco e foi ganhando cor no decorrer do tempo. agora, parece que o mundo já foi mais colorido e está coberto por um filtro esmaecido. não sei se tô me fazendo entender, mas não é perceptível? quero dar valor ao tempo, quero preservar meu amor e o amor dos meus, nossas afetividades, gostos e até angústias e preocupações, vivenciar com atenção o que é comum à vida. acho que pode ser o processo de envelhecer, sabe? antes, não era tão fácil quanto a gente pensa, mas as nossas percepções eram outras. é uma questão de percepção, então? talvez não somente. imagina, não são todos os mais velhos aquelas mesmas crianças, adolescentes e jovens adultos que já foram um dia? sente essa sensação, de envelhecer consciente disso enquanto o tempo flui e o que parecia pouco tempo atrás já faz alguns anos? Jesus, quem dirá mais para frente. procurar na espera, encontrar na perda, dar cor à tela que começa em branco, desbotada ou simplesmente pintar por cima. é desafiador lidar com isso quando a ferida está aberta, eu imagino.

reitero, como certo mecanismo de defesa, que pelas leis da natureza a morte não é um fim, mas um reinício, ou seja, vida. nos mais diversos sentidos existentes.