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Grande Menina, Pequena Mulher (2003)

pôster brasileiro para o filme 'grande menina, pequena mulher'

Molly (Brittany Murphy) e Lorraine (Dakota Fanning) em pôster brasileiro de "Uptown Girls"

imaturidade, drama, mecanismo de defesa, aparência ou essência... não corresponder às expectativas do que se entende por "adulto" no imaginário popular pode ter uma ou diversas razões. em determinado momento contemplativo pós-criação desse espaço, me senti um tanto envergonhado. para além de ser um lugar no qual disponho de certa vulnerabilidade, me veio à mente que não é algo formal – e não é para ser –, que não é algo que muitas pessoas esperam de um modelo idealizado de adulto.

acredito que algumas obras e figuras nos aparecem no tempo certo, por esse motivo tento respeitar o ritmo daquilo que me cerca ou da denominação de sua preferência: Deus, o universo, a natureza ou todos em conjunto. "Grande Menina, Pequena Mulher" (2003) me tocou em aspectos comuns à casa dos vinte. o medo causado pelas incertezas, inseguranças, o poder da escolha tão evidente e ameaçador. o filme apresenta duas personalidades, à primeira vista, bem distintas. Molly, uma jovem mulher herdeira de uma grande fortuna, é carismática e despreocupada; enquanto que, Ray é uma criança sarcástica, metódica e atarefada, filha de uma grande produtora musical. ambas as personagens possuem um histórico que justificam seus comportamentos, Molly perdeu seus pais bem jovem, teve pouca ou nenhuma assessoria durante seu crescimento e se apega às memórias da infância para lidar com situações desafiadoras. o pai de Ray está em coma e sua mãe é muito ocupada, de modo a tornar necessária a contratação de uma babá, razão pela qual se dá o encontro das duas personagens, afinal, a fortuna de Molly foi roubada e ela precisa se sustentar de alguma forma.

vou tentar não comentar muitos detalhes para não comprometer a experiência de vocês ao assistirem! a partir do título e dessa breve sinopse já é possível notar as dinâmicas simbólicas que serão desenvolvidas ao longo do filme… estar no controle da rotina é muito importante para Ray, ela sente necessidade de alguma estabilidade em sua vida, no entanto, acaba abrindo mão da espontaneidade da infância, além de espelhar o tratamento de sua mãe – fria, distante. Molly, por sua vez, é deliberadamente espontânea, imprudente, tudo para ela parece ser mais simples do que realmente é, logo, o que a cerca se torna mais frágil e instável.

como alguém nos seus primeiros anos de adultice, me pego pensando em como a sensação de passagem do tempo se tornou “sutil”. não sei se sutil seria a melhor palavra, mas é uma sensação pouco perceptível até o momento que você dá um zoom out e tanto já mudou, já aconteceu, e você continua ali. a vida acontece e ainda somos a criança, o adolescente, o adulto e adiante.

na infância, as experiências são tão intensas, tão vívidas e, embora nossas lembranças não sejam totalmente correspondentes ao que foi vivido – pois ampliamos os sentimentos relacionados a estas –, muitos elementos cotidianos ganhavam mais destaque do que tornam a ter ao decorrer dos anos. eu gosto de tagarelar sobre meus desenhos favoritos, eu me imagino em cenários fantásticos e mágicos, eu gosto de customizar meus materiais. isso me faz menos adulto? são maneiras de me proteger, de me confortar frente às dificuldades? a sobriedade adulta é só uma invenção ou uma consequência inevitável? infelizmente, o que é atrelado ao infantil tende a ser inferiorizado. ademais, muitas dessas ações permanecem pela vida toda, as pessoas só costumam guardar para si e/ou dar lugar a outras fantasias e outros gostos.

o olhar estético e sensível certamente não é algo exclusivo da infância, deve ser treinado e/ou preservado. na minha concepção, Molly preserva esse olhar mas se isenta de responsabilidades da vida adulta, como uma “grande menina”. Ray suprime esse olhar, afinal, ela é muito ocupada e precisa estar sempre atenta e organizada, é uma necessidade e um hábito, como uma “pequena mulher”. ambas as personagens levam a questão da disciplina a duas extremidades opostas: pouca ou nenhuma, muita e demais.

o filme nos atenta à conciliação dessas facetas, ainda somos tudo aquilo que já fomos e também somos tudo aquilo que podemos ser. não quero me referir ao que “já passou” como reincidente, algo na espreita esperando o momento certo para arruinar o que foi conquistado. se somos tudo aquilo que já fomos ainda temos algumas preocupações insistentes, alguns medos que aprendemos a conviver, mas também sonhos, paixões. se somos tudo aquilo que podemos ser, o que nos preocupa pode ser investigado, analisado e resolvido, o que nos aflige pode ser reconhecido e superado, o que sonhamos pode ser realizado. aprendizados! não sei se me fiz redundante, mas durante o filme percebo que os títulos “grande menina” e “pequena mulher” revezam entre as personagens e creio que esse detalhe já sintetiza muito do que escrevi, elas conciliam suas personalidades aos seus contextos, condições, desejos e responsabilidades.

há várias obras que nos fazem refletir sobre esse tema, aqui estou usando um exemplo como ponto de partida. a loja mágica de brinquedos, o pequeno príncipe, o menino e o mundo... todas lembretes de tomarmos tempo para nos observarmos, nos alinharmos... né? cuide das várias versões de você, viu ⋆✴︎˚。

08 fev, 2026


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